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EXPOSIÇÃO NA CASA DE CÂMARA E CADEIA DA VILA DE PORTALEGRE É DESTAQUE EM BLOG DE PORTALEGRE PORTUGAL. TEXTO PUBLICADO NO

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EXPOSIÇÃO NA CASA DE CÂMARA E CADEIA DA VILA DE PORTALEGRE É DESTAQUE EM BLOG DE PORTALEGRE PORTUGAL.
O PROFESSOR MARTINÓ, PENTANETO DO FUNDADOR DE PORTALEGRE RN E AUTOR DO TEXTO PUBLICADO NO BLOG, FAZ COMPARAÇÃO ENTRE A PORTALEGRE DO BRASIL COM A PORTALEGRE PORTUGUESA.

Leia o Texto Completo abaixo.

O impiedoso dom da ignorância voluntária.




O impiedoso dom da ignorância voluntária

Provavelmente por formação sou sensível às imagens. Procuro ler sempre nelas para além da mera aparência. Foi o caso.

A actual Prefeitura brasileira de Portalegre RN, entre muitas outras iniciativas de alcance comunitário, não apenas recuperou magistralmente a Casa de Câmara e Cadeia -histórica herança colonial da Fundação- como lhe tem vindo a conferir missões de relevante significado. Um destes -no quotidiano- nasce do autêntico museu da cidade instalado no edifício.

O notável acervo ali reunido e exposto serve tanto a comunidade local como os visitantes. Revelando e exibindo o seu passado, a cidade reforça o sentimento identitário dos naturais e projecta exteriormente, com orgulho, esse património.

Os sítios da Ribeira do Podi, os primeiros sesmeiros, os nativos, a Serra dos Dormentes, as fontes e os olhos d’água, Margarida de Freitas, as Serras de Sant’Ana e do Regente, a Fundação, as Pedras do Rei, o Juiz Miguel Carlos e D. Francisco Xavier Aranha, o ouvidor-geral, capitanias, missões e novas vilas, padroeiros, os Paiacú, Cantofa e Jandy, as igrejas e os párocos, a Casa de Câmara e Cadeia, emancipação, o Movimento Republicano de 1817, as lutas pela independência, os quilombolas e as negras raízes, o caju, São Gonçalo, geminação - enfim, termos e conceitos escolhidos quase ao acaso, no entanto familiares a todas as crianças, a todos os jovens e adultos, a toda a comunidade portalegrense brasileira.

E que sabem as crianças, os jovens e os adultos portalegrenses portugueses acerca do seu passado próximo ou remoto, da história e das figuras da sua própria terra? Nada, rigorosamente nada!

As duas fotografias que recolhi referem-se a tudo isso, com inegável exuberância e natural simplicidade. Um painel contém recortes de jornais brasileiros e portugueses a propósito da visita, pioneira, que os portalegrenses de Portugal fizeram aos irmãos portalegrenses do Brasil. Foi a “redescoberta”, quinhentos e tal anos depois de Cabral. [espero que os modernos e moralistas contestatários do termo estejam distraídos!]

Aquelas saudosas páginas de um autêntico e não menos saudoso Fonte Novaganham hoje ressonâncias de documentação histórica, na medida em que se tornaram memória partilhada. No entanto, aquilo aconteceu “apenas” em Outubro de 2004. Mas vale a eternidade.





Por voltas de 2005, na minha terra de cá, a Portalegre alentejana, a sede da autarquia deixou o histórico palácio filipino na zona histórica, trocando-o pelo renovado edifício da Fábrica Real. Bastantes vezes, nessa época, discuti à mesa do Alentejano com o amigo António Ventura acerca do anunciado destino do palácio esvaziado, um arquivo citadino. O Bentes que o diga…

Sempre achei tal projecto indigno daquele nobre espaço, defendendo para ali um Museu da Cidade. Afinal nem um nem outro, porque a antiga Câmara ficou abandonada ao seu triste e indefinido destino. Sinas ou caprichos lagóias…

Portalegre assume, por tradição (!?), o mais absoluto desleixo neste particular campo da preservação das memórias locais. Desmantelou sistematicamente o Jardim Operário, destruiu sem remorsos um monumento -o memorial José Duro- e vandalizou com requinte um outro, o Castelo. Exemplos simples e recentes, praticados em nome do “progresso”.

Toponimicamente, são olvidadas autênticas obrigações de honra ou são cultivadas trivialidades como as do “jardim do tarro” ou da “rotunda do navio”… Está tudo contido na mesma lógica da vulgaridade.

Porém, por paradoxo, Portalegre é capaz do melhor. O programa idealizado e concretizado a propósito do Centenário da I Guerra Mundial é exemplar. Nas realizações que passaram, cerimónias, conferências ou exposições, e sobretudo no que ficou, como publicações ou a recuperação do nobre e olvidado espaço público da Oliveira da Paz, a cidade esteve à altura da tradição local, patente nas suas unidades militares intervenientes no conflito, o Regimento de Artilharia de Montanha 5 e o Regimento de Infantaria 22.

Esta bipolar alternância nada garante de útil ou de positivo. É precisamente tal inconstância portalegrense portuguesa que as imagens portalegrenses brasileiras me trouxeram à actualidade.

Tem a minha Portalegre do lado de cá duas geminações autênticas, entre algumas simulações disso, livre e solenemente firmadas, uma com a minhota Vila do Conde -pela partilha de José Régio- e a outra com Portalegre do Rio Grande do Norte -pelo estreito e profundo significado toponímico e humano comum. Deixemos a primeira que de vez em quando aflora e fixemo-nos na segunda, de todo desprezada. Próxima do zero absoluto…

No seu reduto das serranias potiguares, os nossos irmãos brasileiros levam estas coisas de bem diverso modo, honrando os compromissos assumidos. Já muitos de nós, os portalegrenses portugueses, pudemos lá testemunhar essa prática. Não há pretexto festivo ou comemorativo onde fiquemos esquecidos. E sobretudo, em permanência, figuramos no museu local de Portalegre RN. As imagens, as tais imagens do vulgar quotidiano, atestam que fazemos parte efectiva -e afectiva- do seu património.

A lição aqui fica, para quem tenha sensibilidade -e sobretudo capacidade- para a entender.

António Martinó de Azevedo Coutinho